Vida e morte são extremos intrinsicamente relacionados. Somos finitos.

Vida e morte são extremos intrinsicamente relacionados.

Nos humanos desde sempre ao criarmos culturas com o propósito de alguma maneira relacionarmos melhor e com um tanto de satisfação com o desconhecido com o qual convivemos, estabelecemos diversos rituais para nos adaptar e suportarmos as incertezas do que chamamos vida e morte. Essa adaptação foi construída historicamente ao longo da historia do homem. Quando nos adaptamos em diferentes situações, sofremos conflitos que de uma ou de outra maneira são sublimados com dozes suportáveis de dores. Assim adapta-se a raça humana. O fato de estar vivo ou estar morto é acompanhado por diferentes rituais na sociedade humana. De acordo com a cultura que você pertence o olhar sobre a vida e a morte diferencia-se. Trago comigo um pouco dos rituais de celebração do final de nossa jornada após nossas vidas. A nossa morte. Sinto que pensamos na morte naturalmente porque estamos vivos, celebramos a morte, pois de alguma maneira somos gratos pela vida. Cresci em uma cultura que percebia a morte como perdas, enquanto perdas principalmente de pessoas queridas, somente depois de sublimada a dor, superando o ritual da perda conseguimos verbalizar sentimos que se misturam durante o processo da perda, então conseguimos perceber que vivenciamos o ritual da morte. E sobrevimos. Percebo que após superar o processo da elaboração da morte, a vida ganha um sentido maior, mais frágil e magnificamente inexplicável em seus milésimos de segundo. Na contemporaneidade o reconhecimento da nossa finitude manifesta-se como algo cada vez mais indesejado. Somos finitos esta é nossa definitiva certeza. E a vida? A vida é dura, triste, frágil, doce e bela encantadoramente bela. As pessoas em suas diferentes culturas demostram o respeito ao ato de estar vivo. Com a dor da morte. Por Lúciadifátima

Nem sempre o homem teve tanto medo da morte como na contemporaneidade… o ato de negar a morte…dificulta lidar e elaborar a sua condição humana. Condição finita.
O ritual da morte passou de evento público nas antigas civilizações ao ritual privado nos dias atuais.  Como disse José Saramago que escreveu sobre a morte tantas vezes: O contrário disso é a preocupação que temos hoje de fazer de conta que a morte não existe. Obliterá-la, tirá-la da paisagem. Isso é o que nós fazemos. Os funerais já não atravessam as cidades.
Epicuro – Por que ter medo da morte?  Enquanto somos, a morte não existe, e quando ela passa a existir, nós deixamos de ser.
Desde os primórdios da civilização, a morte é considerada um aspecto que fascina e, ao mesmo tempo, aterroriza a humanidade.

É preciso elaborar nosso luto.

A elaboração do luto
A elaboração do luto – em casos de mortes – não pode ser considerada completa sem os rituais fúnebres. Essas celebrações, além de possibilitarem contatos afetivos e de conforto entre parentes, apresentam simbologias que pretendem concretizar o ocorrido. Em todas as sociedades existem ritos e mitos sobre a morte, pois ela implica a tomada de providências práticas e a reordenação das relações sociais. Existem também questões lógicas que os rituais têm que resolver.
A morte é um grande desorganizador cultural; e a cultura encontra respostas para ela por meio dos rituais, que juntam as pessoas, dão uma condição segura para a expressão dos afetos e ajudam no processo de construção do significado. Os rituais fúnebres – e a elaboração do luto em si – sofrem mudanças de acordo com os processos económico-sociais vividos pelas sociedades. A tendência, hoje, é fazer tudo depressa, o mais indolor possível, reduzindo-se a simbologia ao mínimo necessário. As pessoas, por exemplo, não usam mais o preto para significar a morte, cor que tem uma função importante, pois comunica ao mundo uma situação especial vivida pela pessoa, que merece um tratamento diferente, a nossa cultura atual desqualifica os rituais e tira um pouco do seu valor. Isso tem consequências: as pessoas não conseguem fazer o processo de luto. O luto – e o seu ritual – também pode ser coletivo, quando a comoção por perdas mobiliza grandes massas. Nos antigos ritos em casos de mortes familiares, as pessoas participavam no ritual, que era um evento público. Hoje os rituais fúnebres tendem a ser escondidos, muito mais secos e assépticos. As principais tradições religiosas existentes no mundo – judaísmo, cristianismo, islamismo, budismo e hinduísmo – possuem seus próprios rituais e explicações para a morte.
 
Estudos recentes como este realizado pela revista Saber Acadêmico nº6- Dez. 2008/ ISSN 1980-5950.Predende nos ajudar a refletir sobre, nossa postura diante da morte nos tempos atuais.
Após percorrer várias culturas e religiões é possível verificar que embora a morte tenha um caráter universal, pois o homem está fadado a sua condição de ser finito. As representações deste em relação à morte sofrem alterações significativas no tempo e no espaço, fato este que pode ser observado no decorrer da história da humanidade. Fica claro que na cultura ocidental a ruptura ocorrida a partir da segunda metade do século XX, na qual a morte deixa de ser “familiar”, “doméstica” e passa a ser um “tabu”, algo no qual o homem pós-moderno tenta fugir, a fim de não lidar com a mesma. Porém, a sua condição de mortal não permite que esta “fuga” seja bem sucedida, pois esta faz parte do ciclo vital, de forma que o homem terá que lidar com a morte dos seus entes queridos e por fim enfrentar a própria morte. É evidente que, embora esta atitude de não lidar com a morte não evita que esta o atinja, porém impede é que o homem crie meios de enfrentar e elaborar aquilo que é inevitável, pois tal como diz o ditado popular “a maior certeza que o homem pode ter é que um dia há de morrer”.
 

Mesopotâmia

Mesopotâmia
A sociedade Mesopotâmica sepultava seus mortos com tamanho zelo que juntamente com o corpo eram postos vários pertences que marcavam a identidade pessoal e familiar do  mesmo (roupas, objetos de uso pessoal e até mesmo a sua comida favorita), garantindo assim que nada lhe faltaria na travessia do mundo da vida para o mundo da morte, implantado no subterrâneo terrestre. Este rito objetivava a representação de morte que os mesopotâmios tinham, que era a de passagem.

Os gregos

Os gregos
Já os gregos tinham como característica cultural nos seus ritos funerários a prática de cremar os corpos dos mortos, com o intuito de marcar a nova condição existencial destes, a condição social de mortos. Entretanto, havia dois tipos de mortos basicamente: os mortos comuns e anônimos e os heróis falecidos. Os primeiros eram cremados e enterrados coletivamente em valas, uma vez que eram vistos como simples mortais. Já o segundo tipo era levado à pira crematória, reservada para os grandes heróis, na cerimônia da bela morte, uma vez que nas representações dos gregos esse tipo de morte tornava imortal o morto. Esse tipo de simbolização da morte pode ser constatada na obra de Homero, denominada Ilíada, onde o autor aponta Aquiles como o melhor dos gregos em função de seus atos de bravura (GIACOIA, 2005).

A morte

A morte e as religiões
Os hindus, como os gregos, tinham o costume de incinerar os corpos. Entretanto, o sentido era completamente diferente, pois os gregos cremavam com o intuito das cinzas guardarem a memória dos mortos. Já os hindus cremavam o cadáver, o qual era despojado de sua identidade, personalidade e inserção social. Uma vez consumido pelo fogo, as cinzas eram lançadas ao vento ou nos rios. Através deste ritual os hindus objetivavam a sua representação da morte que consistia na passagem para outro plano da existência: o fundir-se com o Absoluto, o
acesso ao Eterno, ao Nirvana, ou seja, à paz originária. Ao contrário dos gregos, para os hindus a grande personalidade não era o herói, nem o rei, mas sim aquele que fosse capaz de negar-se a si mesmo, despojando-se de seus traços individuais. Com isso, o indivíduo admirável para os hindus eram os ascetas, os monges, os quais despojavam-se a tal ponto de abrir mão dos dois mais poderosos mananciais da vida: o desejo de conservação e de reprodução. Estes não tinham os corpos cremados, mas eram enterrados em posição de meditação, em covas nos lugares sagrados, nos quais eram realizadas peregrinações e indicavam para os hindus que o verdadeiro sentido da vida era o despojamento do corpo, o que resultaria numa preparação para a morte gloriosa (GIACOIA, 2005).
Já para a civilização cristã e para boa parte dos judeus (aqueles que acreditam na ressurreição) a morte era vista como passagem para outra dimensão, a transposição ao eterno sofrimento e expiação (inferno), ou o acesso ao eterno gozo, reservado aos bem-aventurados (o paraíso). A morte para os cristãos era um estágio intermediário, um sono profundo do qual acordariam no dia da ressurreição, quando as almas voltariam a habitar os corpos. É devido a essa crença que os cristãos há muito tempo enterram os corpos dos defuntos com grande escrúpulo. “Essa idéia introduziu uma nova percepção e poupou gerações ao longo de séculos da ideia aterradora do fim definitivo” (FLECK, 2004, p. 1999 Apud GIACOIA, 2005).
 
Civilização Ocidental
A morte e a Civilização Ocidental É importante salientar que a sociedade ocidental tem as suas raízes na civilização grega, berço do pensamento ocidental, bem como no judaísmo e no
cristianismo, religiões estas que influenciaram muito a cultura ocidental, a qual será abordada a partir da Idade Média até a Idade Contemporânea.
 
Idade Média
Na idade Média
Na Idade Média é possível identificar mudanças significativas em relação à morte e ao morrer em dois momentos: na primeira Idade Média ou alta Idade Média (do século V até o XII) e na segunda Idade Média ou baixa Idade Média (do século XII até o XV).
Primeira Idade Média
Na primeira Idade Média a morte era “domesticada”, “familiar”, ou seja, havia certa intimidade entre o morrer e o cotidiano da sociedade, a tal ponto que este ato era
encarado como algo natural da vida. Era comum o moribundo, pressentindo a chegada de sua morte, realizar o ritual final, despedir-se e quando necessário reconciliar-se com
a família e com os amigos, expunha suas últimas vontades e morria, na esperança do juízo final quando alcançaria o paraíso celeste. É por isso que nesta época a morte
súbita, repentina era considerada vergonhosa e às vezes considerada castigo de Deus, pois a morte casual inviabilizava o processo do morrer descrito acima.
Era comum os parentes e amigos logo após a morte do moribundo romper em grandes manifestações de luto. “Tão logo se constatava a morte, irrompiam em torno às
cenas mais violentas de desespero” (ARIÉS, 1989b, p. 153). Os defuntos eram enterrados somente com os sudários (sem caixão) em grandes valas, nas quais eram depositados vários cadáveres, nesta época não se tinha a necessidade de um túmulo próprio para o morto, o qual seria sua propriedade perpétua. O cemitério e a igreja se confundiam, uma vez que os mortos eram enterrados tanto no interior das igrejas (ricos) quanto no seu pátio (pobres). Está prática está ligada à idéia de que uma vez enterrados perto dos santos e mártires estes guardariam os mortos enterrados ao seu derredor protegendo-os do inferno. É importante salientar que embora a igreja e o cemitério estivessem interligados, ambos não deixaram de ser lugares públicos, nos quais ocorriam encontros e reuniões, de forma que vivos e mortos conviviam em locais comuns. (ARIÉS, 1989a)
 
 
 
 
 
Já na segunda Idade Média
Já na segunda Idade Média ocorreram mudanças significativas nas representações da morte no Ocidente. A partir do século XII, ao invés da certeza passa a reinar a incerteza, uma vez que agora cabia à Igreja intermediar o acesso da alma ao paraíso e o julgamento final deixava de ser visto como evento que ocorreria nos tempos finais e passa a ser visto como um evento que aconteceria imediatamente após a morte e resultaria na descida ao inferno (no sofrimento eterno) ou a ascensão aos céus (na alegria eterna) e isso dependeria da conduta do moribundo antes da morte. Essas mudanças causaram alterações nas perspectivas das pessoas em relação à morte, a qual deixava de ser algo natural e passava a ser uma provação. “Sente-se que a confiança primordial está alterada: o povo de Deus está menos seguro da misericórdia divina, e aumenta o receio de ser abandonado para sempre ao poder de Satanás”(ARIÉS, 1989b, p. 163).
 
Século – XII
Esta mudança de perspectiva em relação à morte, ocorrida no século XII, faz com que esta passe a ser “clericalizada”, segundo Ariés (1989b), é a maior mudança antes das secularizações do século XX.

Na baixa idade Média
Na baixa idade Média já não é mais legitimado perder o controle e chorar os mortos. O corpo do morto antes tão familiar passa a se tornar insuportável e assim, durante séculos o mesmo vai ser ocultado numa caixa sob um monumento, onde não é mais visível. ”Pouco tempo depois da morte e no próprio local desta, o corpo do defunto era completamente cosido na mortalha, da cabeça aos pés, de tal modo que nada aparecia do que ele fora, e em seguida era fechado numa caixa de madeira ou cercueil (caixão), termo francês proveniente de sarcófago, sarceu” (ARIÉS, 1989b, p. 180 – 181).

Atualidade
Segundo Carvalho (1996) na atualidade evita-se falar de morte, bem como de ver o corpo do moribundo, pois isto nos traz à consciência a ideia de nossa própria finitude. Em função desta interdição da morte é comum o círculo de relação do moribundo ocultar ao doente a gravidade do seu estado buscando assim poupá-lo desta provação. Essas transformações atingem os ritos funerais os quais passam a ter cerimônias mais discretas, condolências breves e o encurtamento no período dos lutos (SOUZA, 2002) ou como apresenta Maranhão (1986, p. 18 – 19) Depois dos funerais, o luto propriamente dito.
 
 
O dilaceramento da separação e a dor da saudade podem existir no coração da esposa, do filho, do neto; porém, segundo os novos costumes, eles não os deverão manifestá-los publicamente. As expressões sociais, como o desfile de pêsames, as “cartas de condolências” e o trajar luto, por exemplo,
desaparecem da cultura urbana. Causa espécie anunciar seu próprio sofrimento, ou mesmo demonstrar estar sentindo-o. A sociedade exige do indivíduo enlutado um autocontrole de suas emoções, a fim de não perturbar as outras pessoas com coisas tão desagradáveis. O luto é mais e mais um assunto privado, tolerado apenas na intimidade, às escondidas, de uma forma análoga à masturbação. O luto associa-se à idéia de doença. O prantear eqüivale às excreções de um vírus contagioso. O enlutado deve doravante ficar isolado, em quarentena. Segundo Souza (2002), este fenômeno ocorre não só em função da morte deixar de ser vivenciada, mas também pelo fato da cultura ocidental passar a priorizar a preservação da felicidade.
Outro indicativo para a interdição da morte na atualidade se dá em função da contastação que a mesma provoca numa sociedade cada vez mais tecnológica e totalmente voltada para a produção e para o progresso (COE, 2005; MARANHÃO, 1986; VILAR, 2000). E por fim há apontamentos de que esta negação da morte é um problema das sociedades individuais, nas quais a dor da perda gerada pela morte é mais intensa do que nas sociedades coletivas, as quais possuem relações sociais que vão além do próprio indivíduo, o que lhes possibilita a diluição da dor na coletividade e que os mesmos encarem a morte de modo natural (SANTOS, 2000; VILAR, 2000). REVISTA MULTIDISCIPLINAR DA UNIESP -SABER ACADÊMICO – n º 06 – Dez. 2008/ ISSN 1980-5950
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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Sobre luciadifatima
Que eu me lembre...sempre gostei de compreender a vida observando ou fazendo uso de imagens...quando adolescente amava fazer recorte e colagem...quando o professor de Arte pedia pra interpretar poemas e temas usando imagens de revistas velhas.O trabalho com a pesquisa de imagens era pra mim um encanto. Hoje sinto que as convivências humanas são direcionadas por eternos recortes e colagens...Humanamente recheados e colados por acertos e erros...os registros gravados neste espaço pretendem estimular e ampliar...reflexões...que busque a construção da melhoria das nossas convivências. O trabalho com educação que realizei durantes alguns anos, principalmente com crianças, amplia a esperança em nos tornarmos cada vez mais humanos. Provavelmente trocaremos saberes sobre mil coisas. Agradeço sua participação e a sua significativa contribuição neste processo de emancipação cidadã para todos e com todos.

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